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Um refúgio no Guajuviras

Projeto social Agência da Boa Notícia, em Canoas, ensina jornalismo cidadão a jovens do bairro

Postado em 14 de março de 2013 por unicos.cc

“Em qual página de jornal há maior probabilidade de encontrar nomes de moradores do bairro Guajuviras, de Canoas? Nas páginas policiais.” Esse é um comentário recorrente na região, conhecido até pouco tempo atrás como a Bagdá do Rio Grande do Sul. Desde 2009, no entanto, vem ocorrendo uma virada nesse padrão. Com a melhoria do policiamento e a criação de projetos sociais, a violência foi reduzida de 63% no bairro. Uma das mais de 50 ações que estão mudando essa estatística é a Agência da Boa Notícia Guajuviras (ABNG), espaço no qual jovens de 11 a 24 encontram uma oportunidade de mudar a sua própria realidade e a do lugar em que vivem.

Há quatro anos, o Ministério da Justiça mapeou os lugares mais violentos do Brasil e criou os chamados Territórios da Paz, que hoje estão espalhados por dez Estados do país. Uma das localidades escolhidas foi justamente o Guajuviras. Em parceria com a Prefeitura Municipal, foram decididas as medidas a serem tomadas para diminuir a violência, principalmente entre os jovens. Os três eixos definidos como essenciais nesse processo foram: formação das polícias, investimento em tecnologia – para o monitoramento das ruas – e a criação de projetos sociais. Nesse momento, nascia o embrião da Agência da Boa Notícia.

Ao entrar na sede da ABNG, na Avenida Boqueirão, em Canoas, é difícil não se surpreender com a estrutura do lugar. Andrea de Freitas, coordenadora do projeto, conta que, ainda na concepção de como seria o ambiente, pensou que não queria fazer um “projeto social de TNT”, se referindo ao tipo de tecido barato comumente usado para decorações. Isso significa que ela aspirava ter um espaço ideal para a prática do jornalismo com o aporte das últimas tecnologias. O sonho da coordenadora se tornou realidade, e, atualmente, o local conta com um estúdio de rádio, outro de TV, salas com computadores de última geração e câmeras fotográficas semiprofissionais, que possibilitam aos jovens trabalhar como se estivessem em qualquer faculdade de Jornalismo.

Hoje, os jovens do Guaju, como é carinhosamente chamado pelos moradores, têm acesso a um espaço de aprendizado sobre jornalismo cidadão. Lá, participam de oficinas, como Web TV, Rádio Web, Fotografia e Direitos Humanos. Três turmas, totalizando 169 meninos e meninas, já se formaram no projeto. No entanto, eles não estão somente capacitados para as técnicas jornalísticas. Quem sai da ABNG tem os olhos mais atentos para o que acontece além do bairro em que vivem. “Só em tu perceberes que o teu mundo vai além do que tu está vivendo cotidianamente na tua rua já é uma grande coisa”, observa Andrea.

Enquanto em um jornal diário a proporção de notícias sobre acidentes de carro, assaltos, assassinatos e outros acontecimentos ruins tende a ser maior do que a de eventos positivos, na Agência – que já traz no próprio nome essa mensagem –, o objetivo é retratar as qualidades do Guaju. Andrea explica que a ideia é mudar a visibilidade social do bairro, que ainda é visto com uma imagem negativa pelo grande público.

Vencendo a vergonha

William Gonçalves Martins e Richardson Albuquerque Schisller, ambos de 14 anos, são motivo de orgulho para os professores e coordenadores do projeto. Os dois meninos foram alunos da Agência e agora se tornaram monitores. “Eu nunca achei que eu ia ser um professor, um monitor, mas eu estou achando muito bom”, conta Richardson.

Poucas são as semelhanças físicas entre os dois, mas o brilho nos olhos pelo jornalismo é o mesmo. William, que é mais alto e corpulento do que o colega, entrou no projeto pensando em seguir a carreira de jornalista. O problema, no entanto, era a timidez, que logo foi embora com o decorrer das oficinas. Hoje, com a vergonha de se comunicar superada, ele apresenta com desenvoltura o programa para a internet Galera Guaju. No programa gravado em 5 de março, William entrevistou a dupla Fat Duo. Irreverentes, os DJs Cabeção e Fina deram trabalho para o apresentador, que não perdeu a concentração e o senso de humor.

Durante a época de aluno, Richard, como é chamado pelos colegas, se apaixonou pela edição e filmagem. Mais baixo, franzino e envergonhado do que William, ele conta que antes de entrar na Agência assistia à televisão de uma forma diferente da qual assiste agora. Hoje, ele vê de forma mais crítica o que é veiculado, como enquadramentos de câmera e incidência da luz. Richard também se sente bem mais preparado para situações além das técnicas jornalísticas. “Antes, eu não sabia o que fazer, por exemplo, caso acontecesse um insulto. Eu agiria de uma maneira diferente de como eu agiria agora”, relata.

Por estar no projeto desde a concepção, Andrea tem várias histórias de ex-alunos que também superaram a vergonha e outros medos no curso. Ela conta o caso de uma menina, formada em 2012, que tinha graves problemas para se comunicar. “Quando ela falava, o ombro baixava, de tão corporal que era a dor que ela sentia”, narra. Na última semana das aulas, ela surpreendeu a todos: “Quero ser a âncora do jornal”. O parceiro de bancada dela na apresentação também saiu de trás do seu esconderijo. “Ele nunca tirava o boné, parecia que fazia parte do corpo”, conta Andrea. Pouco antes da gravação, ele disse que tiraria o chapéu se pudesse ser o apresentador.

Unisinos é parceira

Ainda na fase de elaboração do projeto, previu-se que uma universidade deveria realizar um trabalho de orientação pedagógica. A Unisinos foi escolhida por ter uma graduação em Jornalismo, um Programa de Pós-Graduação importante e investir em projetos sociais. Hoje, quem coordena a parceria da Unisinos dentro da Agência da Boa Notícia é a professora do PPG de Comunicação Denise Cogo.

Ela destaca que esse projeto tem como relevante o fato de expor positivamente a comunidade do Guajuviras, sem esperar que a grande mídia o faça. “Um dos aspectos importantes é fazer uma comunicação cidadã, é formar jornalistas cidadãos que possam tomar para si, dentro de uma comunidade, a própria representação dessa comunidade”, explica. Outro ponto explorado pela professora é o espaço oferecido pela Agência de socialização dentro do bairro, que excede os limites do convívio escolar.

Onde encontrar

Os conteúdos produzidos pela Agência da Boa Notícia podem ser encontrados em várias mídias. O material de vídeo é postado em um canal no Youtube. Alguns dos podcasts estão no site da Prefeitura de Canoas. Já as fotos vão para uma conta no Flickr e para a fan page da Agência.

Os alunos da ABNG também produzem o Jornal da Boa Notícia. Com quatro páginas coloridas, traz a cobertura de pautas sugeridas pelos próprios jornalistas cidadãos. É produzida uma edição por turma formada. Os mil exemplares são distribuídos durante o evento de fechamento do curso.

 

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