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Senso do ridículo

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Postado em 3 de outubro de 2016 por unicos.cc

Por Guilherme Rovadoschi

Dizem, desde sempre, que cavalo encilhado não passa duas vezes. O ditado é datado, com o perdão do trocadilho, para as grandes oportunidades que necessitam de uma tomada de decisão. O movimento Bom Senso Futebol Clube, formado por atletas, ex-atletas e empresários descontentes com o calendário proposto pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF) para o futebol brasileiro, bravateou a salvação do esporte em diversas oportunidades, sempre deixando o cavalo sem ninguém na garupa.

O último animal que passou de esguelha pelo grupo saiu da sede da CBF, no Rio de Janeiro, em 16 de dezembro de 2015. Na intrincada eleição para a vice-presidência da entidade que comanda o futebol brasileiro, o Bom Senso F.C. abriu mão de indicar uma candidatura própria. Era a chance de ir além das paralisações em campo, notas de repúdio e faixas defendendo a pluralidade do futebol. A alegação do Bom Senso, em nota – óbvio – era de que a derrota seria iminente.

Derrotas homéricas e vexatórias já fazem parte da sina do brasileiro ao assistir futebol. Tragédias no Sarriá, Maracanã e Mineirão – todas em Copas do Mundo – são intrínsecas ao sentimento ufanista de quem torce pela seleção. Que mal faria mais uma derrota? Entretanto, os derrotistas, neste caso, seriam os vencedores. Uma oposição de verdade, de peito aberto, contra as gestões de João Havelange, Ricardo Teixeira, José Maria Marin e Marco Polo Del Nero. O cavalo se foi juntamente com os 44 votos que elegeram Antônio Carlos Nunes, o coronel Nunes, candidato único – ligado à CBF – para assumir o posto deixado aberto por Marin, preso no dia 27 de maio de 2015 em Zurique com outros seis dirigentes ligados à Fifa.

Mesmo com os desmandos da CBF, a devoção dos brasileiros com o esporte bretão, posta em dúvida após cada ruína em campo, ainda é irrefutável. Pesquisa do Instituto Ibope de 2012, a última sobre o tema, apontou que a maior paixão dos brasileiros é o futebol. 77% dos 1.969 entrevistados acima de 18 anos afirmaram que a cerveja gelada, os quadris opulentos no carnaval, a picanha malpassada do churrasco de domingo, a água cristalina das praias catarinenses, os discos do Roberto Carlos e a nova novela de Benedito Ruy Barbosa ficam em segundo plano quando a bola é alçada, de forma inexorável, pela ponta direita.

Apesar de contar com a maior paixão brasileira ao seu lado – e a própria população, por que não? -, o Bom Senso F.C. não consegue colocar em prática uma de suas principais bandeiras: a pluralidade. O movimento, composto por 75 atletas e ex-atletas de séries A e B do Campeonato Brasileiro, denuncia: menos de 3% dos atletas profissionais no Brasil conseguem ganhar dinheiro para chegar ao final de suas carreiras e viver de renda; e 85% dos atletas ganham de um a três salários mínimos. Entretanto, nenhum jogador de séries menos abastadas participa do grupo, frequenta as reuniões ou assina – elas, de novo – as malfadadas notas direcionadas à imprensa.

Com isso, o debate passa a ser exclusivamente dos abastados, dos 3%, dos que, além do salário, lucram com o direito de imagem, com luvas, com patrocínios na chuteira, com voz. O resto, aproximadamente 15 mil atletas registrados na CBF – isso sem esquecer os ex-atletas abandonados e desprezados por seus antigos clubes -, torna-se apenas um motivo para a proclamação de defesa do movimento, trazendo mais um motivo para deixar fugir, novamente, o cavalo encilhado da pluralidade.

A união em torno do que o Bom Senso F.C. chama de “tornar o Brasil o verdadeiro país do futebol” esquece um outro lado ainda menos favorecido: o futebol feminino. Enquanto o salário de um dos líderes do movimento, Rogério Ceni, que se aposentou em 2015 jogando pelo São Paulo, beirava os R$ 700 mil mensais, os poucos clubes que mantêm equipes de futebol feminino no Brasil pagam, no máximo, R$ 2 mil mensais para as melhores atletas. A CBF, por exemplo, paga um salário médio de R$ 9 mil mensais às jogadoras da Seleção Brasileira Feminina de Futebol para a disputa de torneios trimestrais. A igualdade de gênero, tema que emerge na sociedade, é algo que o Bom Senso não teve o bom senso – com o perdão do trocadilho, mais uma vez – de debater.

Quem já jogou para escanteio a paixão pelo futebol, assim como eu, pode tentar se encantar com outro tipo de grito de gol. Que tal com o polo equestre? Na última Copa do Mundo de polo, realizada em Santiago, no Chile, em 2015, a Seleção Brasileira terminou em terceiro lugar. Nos últimos vinte anos, foram três títulos da competição. A oportunidade passa, pelo que sei, apenas uma vez encilhada. Preciso, definitivamente, comprar um cavalo.

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