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Quando crescer não é opção

NíniveGirardi-0394

Postado em 25 de outubro de 2016 por unicos.cc

Ao lado de suas inseparáveis bonecas, Janaína vive um mundo particular. Priscila, Kátia, Mara e Paloma são suas companheiras em toda parte. Com o papel e o lápis à mão, ela rabisca alguns traços com a imaginação à solta. Presta atenção em tudo que se fala ao redor. Pouco entende. Limita-se a dizer algumas sílabas, intercaladas com algumas risadas que enchem o espaço. Essa poderia ser a história de muitas das crianças do bairro Vicentina, porém Janaína Beatriz da Costa tem 40 anos, mais de um metro e sessenta e pouco menos de 100 kg.

Peter Pan, segundo o conto, negou-se a encarar a vida adulta. Também pudera: a infância geralmente reserva a pureza e provavelmente a melhor época para se viver. Mas ao contrário do personagem, Janaína não pode crescer, embora seu corpo diga o contrário. Vítima de paralisia cerebral desde o nascimento, ela convive com a indiferença e com o preconceito — mas tem ao seu lado um amor incondicional de mãe. Maria Elizabete da Costa, 58 anos, abriu mão da própria vida para, segundo ela, cumprir uma “obrigação”: cuidar da filha até o dia em que não puderem mais estar juntas.

O tapete da boneca Barbie dá as boas-vindas a quem chega ao quarto de Janaína. Nas paredes, prateleiras com suas bonecas — todas muito bem vestidas e limpas. A poltrona, logo abaixo da janela, é feita de garrafas pet e recebeu uma capa com estampa de zebra. Janaína gosta de sentar ali com seus brinquedos. Mãe e filha dormem juntas, em uma cama de casal. A casa é simples e acolhedora, assim como são essas resistentes mulheres.

O drama de Janaína começou antes mesmo de nascer. Com oito meses de gravidez, Maria Elizabete foi atacada pelo ex-marido, com uma facada. O golpe atingiu sua barriga. Para fugir da agressão, ela pulou a janela de casa e foi amparada por um amigo, que a levou de charrete até o hospital mais próximo. As consequências seriam irreparáveis — para mãe e filha: Janaína ficou 48 dias na incubadora de uma UTI e com uma sequela sem fim.

Segundo estudos da Faculdade Latino Americana de Ciências Sociais, em parceria com as Nações Unidas, o Brasil é um dos cinco países do mundo com os maiores índices de violência contra a mulher. Treze são assassinadas por dia no País — uma a cada duas horas. As maiores vítimas são negras e pobres.

Após a separação do marido, depois de 31 anos de casamento — e de muito sofrimento — especialmente quando ele, alcoólatra, a agredia, Maria Elizabete abandonou a família. Foram 15 dias longe de casa. Mas ela voltou para buscar Janaína. “Eu suportei esses anos todos pela minha família. Nunca o denunciei à Polícia. Assim que meus dois outros filhos casaram, e saíram de casa, eu abandonei ele para ficar com a minha filha”, conta.

Nesse cenário de violência familiar, a infância, como Janaína relata ao seu modo, não foi uma época fácil. Ela lembra, quando perguntada, da vontade de estudar e de algumas brincadeiras. Mas só responde com sim ou não, pois não faz associações de palavras e dificilmente completa uma frase. A mãe, receosa com o preconceito que ela poderia sofrer, nunca a incentivou a frequentar o colégio. “Ela me pedia para ir à escola. Tive medo do que poderia acontecer. Ela é muito ingênua”., ressalta. Janaína, porém, frequentou a APAE (Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais) por alguns anos, mas também não se sentiu à vontade no meio das demais crianças; a essa altura já chamava atenção pelo tamanho e pelo peso. A solução, segundo a mãe, foi isolar a filha dentro de casa.

Outro drama acompanhou Janaína durante toda a infância e a adolescência foi a epilepsia, decorrente da paralisia cerebral. Foram quase 30 anos tomando doses diárias de medicação, que a deixavam com dificuldades para caminhar — ela andou somente aos seis anos. Porém a rotina de Janaina mudou nos últimos anos. Ela deixou de lado o coquetel de remédios a que era submetida desde criança. A mãe, que sempre foi faxineira, decidiu fazer um curso de enfermagem para melhorar a condição da família e para entender melhor como ajudar sua filha. Resolveu, então, por conta própria, cortar a medicação. “Ela ficava tonta, não enxergava, caía. Eles eram muito fortes. Hoje em dia ela está bem melhor.”

Elas moram no Vicentina há dois anos. Há três meses, depois de passar dias extremamente difíceis, como Maria Elizabete define, devido às enchentes, ela decidiu reformar a casa de madeira. Para isso, se encheu de contas — foram R$ 6 mil ao todo. “Estou devendo os cartões de crédito e não tenho vergonha de falar. Fiz por mim e por minha filha. Vou pagando como consigo. A gente parcela, paga juros, mas não deixa de dar um pouco todo mês”, relata. Elas vivem com dois salários mínimos, ambos benefícios do Governo Federal. Janaína está enquadrada no BPC-Loas (Benefício de Prestação Continuada da Assistência Social) e Maria Elizabete está “encostada”, devido ao pré-câncer nas axilas.

Se as dificuldades fora de casa sempre foram gigantes, no lar não são muito diferentes. Até hoje Janaína precisa de ajuda em quase todas as tarefas do dia a dia. O pão e a carne, por exemplo, só come depois de cortados em pequenos pedaços, para não se engasgar. A ida ao banheiro é um capítulo à parte. A mãe precisa conduzi-la, ligar a luz, sentá-la e limpá-la. O banho, que adora, só acompanhada pela fiel escudeira. “São 72 horas de dedicação por dia”, brinca.

Mas não é apenas Janaína que sofre com o olhar preconceituoso do vizinho. A família e os amigos questionam, segundo Maria Elizabete, a sua atitude de manter a filha “isolada” do convívio social, a acusando de uma superproteção”. Ela conta que tentou dar liberdade à filha. Como resultado, Janaína se queimou no fogão quando tentou cozinhar e quase se afogou no banho, na única vez em que fez isso sozinha. A mãe relembra, também, que embora o comportamento infantil, a filha é uma mulher de 40 anos e com desejos íntimos comuns à idade. “Ela vê casais se beijando e me pergunta porque não pode fazer o mesmo. Eu desconverso. Ela não saberia lidar com essa situação”, justifica a mãe.

Janaína não faz associações e não consegue lembrar de muitas coisas de sua vida. Sobre o passado, apenas menciona o desejo de estudar. Se diz feliz. Gosta de estar em casa. Ama a mãe, que chama de seu “tudo”. Mas essa mãe muitas vezes já pensou em jogar tudo para o alto. “Se eu penso em largar essa situação? Sim. Quase todos os dias. Não é fácil, mas também não é difícil. Faria tudo de novo pela minha filha.”

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