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Para exercitar o olhar e a cabeça

Foto 10 - Triângulo de Ouro

Postado em 5 de novembro de 2013 por unicos.cc

Textos de Mauricio Trilha, Gabriela GonçalvesJoão Daniel AitaLuciano Del Sent, Cintia Fernandes, Pedro Henrique NunesJoaquim Oresko.

Foto de capa: Leonardo Stürmer (clique para ver a galeria)

 

Para exercitar o olhar e a cabeça

Mauricio Trilha

Impossível chegar à Praça da Alfândega e não sentir que algo diferente está acontecendo no ambiente. Além da Feira Do Livro, que ocupa quase todo o espaço da praça com seus estandes, percebe-se uma movimentação atípica em frente aos três museus que ficam lado a lado, na sua extensão. É a 9° edição da Bienal do Mercosul. Neste ano, a exposição conta com obras de mais de 100 artistas de 26 países, distribuídas em quatro espaços. Além de Santander Cultural, MARGS e Memorial do Rio Grande do Sul, a mostra ocorre também na Usina do Gasômetro.

“Se O Clima For Favorável” é o tema desta edição. O primeiro pensamento que vem à cabeça quando se lê a palavra “clima” é em relação às condições climáticas – também pode ser – só que na realidade o “clima” aqui diz respeito ao sentimento de quem está em contato com a exposição. A Bienal convida seu público para uma reflexão sobre arte contemporânea. Quando, como, por quem e por que certos trabalhos de arte ganham ou perdem mais visibilidade em dado momento no tempo? Como reagimos diante de algo que a primeira vista não faz sentido?

Quem tem costume de frequentar a Bienal vai notar um “vazio” nos ambientes. Os poucos objetos em exposição (se comparados aos anos anteriores) causam estranheza. Há nesta edição um espaçamento grande entre uma obra e outra, talvez porque os objetos ali expostos remetam a outros lugares que exigem um esforço da nossa cabeça para serem visitados. Nesta Bienal usar apenas os olhos não é suficiente, é necessário que se use principalmente o cérebro. O espaço permite também que o exercício da interpretação seja maior. Você passa por um objeto e fica pensando por um bom tempo, antes que apareça outro e desvie sua atenção.

Para mostrar o caminho

A arte contemporânea desafia o público, ela não é direta. Muitas vezes o que o artista quis dizer passou longe do que o visitante conseguiu entender, neste momento entram em cena os mediadores: “Nosso papel é facilitar a conexão do público com a obra. Nós fazemos uma ponte entre as pessoas e o artista”, explica Julia Kieling, mediadora que trabalha no Margs.

Os “guias”, como são geralmente chamados pelos visitantes, estudam por cerca de um ano para poderem trabalhar na Bienal. Assistem palestras, participam de atividades externas e principalmente, se apropriam da ideia dos artistas. Eles precisam desenvolver um método não para explicar, mas para dar uma luz a quem está perdido diante de algo que parece não fazer sentido.

O papel do mediador é aproximar o pensamento do visitante, da ideia do artista. “O mediador na verdade funciona como um disparador do pensamento de arte. Nós não vamos responder as perguntas dos visitantes, nós vamos devolver as perguntas com outras melhores ainda”, conta Laura Opperman, mediadora que trabalha no Memorial do RS.

A 9º Bienal do Mercosul entra agora na sua última semana. As exposições vão até o dia 10 de Novembro. A entrada é franca. Mais informações no site: www.9bienalmercosul.art.br.

 

MUSEU DE ARTE DO RIO GRANDE DO SUL

 

Arte e questões

Gabriela Gonçalves

O Museu de Arte do Rio Grande do Sul, MARGS, é um dos espaços que recebe a 9ª Bienal do Mercosul. Construído em 1913 para acomodar a Delegacia Fiscal, e revitalizado entre 1996 e 1998, contém ladrilhos, azulejos e vitrais que materializavam, no início do século, o ideal de modernização e progresso da república positivista gaúcha.

Ao entrar no local, a primeira obra avistada é justamente a mais fotografada desta edição da Bienal. Produzida em 1971 por Tony Smith e sem conter um título, a escultura em papelão possui elementos em duas formas principais: tetraedro e octaedro. Popularmente conhecida como Caverna de Morcego, a ideia do artista foi criar um ambiente similar ao de uma caverna. Infelizmente, o material adequado é pouco durável, mas o único capaz de transmitir uma sensação de leveza e suavidade com textura particular e de cor semelhante a um ninho de vespa. Para ser exposta no MARGS, a obra foi desafiadoramente reconstruída com a ajuda de colaboradores e apoiadores.

O fato de não possuir um título definido instiga a criatividade e olhares apurados de quem admira a escultura. Com seu grande tamanho, é fácil caminhar por meio dos papelões e aguçar o sentido de adentrar numa caverna, onde não há cores e nem movimento. Sem dúvidas, Smith atingiu seu objetivo, principalmente ao abusar de apenas duas formas geométricas.

Provando que um artista contemporâneo deve ser um inteligente propositor de questões, Luis F. Benedit cria o Labirinto Invisível (1971). Utilizando sete espelhos côncavos, aço inox, lâmpadas, alarme eletrônico, vidro e um peixe, Benedit cria uma obra completamente interativa. O desafio é adivinhar o caminho correto deste labirinto imaginário para chegar ao aquário, que se encontra ao centro. Caso o espectador erre, o alarme sonoro dispara. A dica é seguir os reflexos dos espelhos, observados nas paredes do museu. A arte contemporânea se faz presente em cada momento desta construção, encorajando o público a descobrir seu resultado.

Desafio e diversão

João Daniel Aita

Lucia Silva, de 34 anos, é uma das mediadoras que atuam, durante a Bienal, no MARGS. Segundo ela, logo que as pessoas entram no museu, levam um susto ao ver o tamanho da obra apelidada de Caverna de Morcego.  Pela segunda vez trabalhando na Bienal, Lúcia se diz feliz em mostrar para os visitantes o trabalho que os artistas expõem.

Outra sensação entre o público é o “labirinto invisível”. Segundo Gustavo Pereira, outro mediador do Museu de Arte do Rio Grande do Sul, a obra é uma das mais procuradas no museu, especialmente por excursões de escolas e faculdades que visitam a Bienal. Gustavo diz também que a interação é muito grande, e que sempre tem alguém tentando vencer o desafio do labirinto proposto pelo autor da obra.

 

MEMORIAL DO RIO GRANDE DO SUL

Produção que leva à reflexão

Luciano Del Sent

O Memorial do Rio Grande do Sul (RS), situado em Porto Alegre, é um dos centros que recebem as obras de arte contemporânea expostas na 9ª Bienal do Mercosul. As produções apresentadas no local possuem caráter reflexivo, “forçando” o espectador a pensar sobre quais seriam as possíveis intenções e os diversos significados propostos pelo artista. As produções são vistas por cada indivíduo a partir de diferenciadas perspectivas, algumas inusitadas.

Ao adentrar no Memorial – possuidor de uma estrutura clássica, que valoriza os pilares de sustentação e suas molduras, similar aos da Grécia Antiga –, o público, rapidamente, visualiza um longo “Tapete”. Em cima dessa obra de arte, existe algo que parece ser constituído de “Terra de Barro”, devido à coloração avermelhada. Algumas pessoas descreveram essa produção de maneira inusitada. “Achei legal esta obra, pois, possivelmente, animais interferiram no trabalho do artista, urinando sobre ela”, destacou a estudante de História da Arte, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Claudia de Moura.  De certa maneira, essa produção deixa os espectadores intrigados, pois, realmente, parece que houve interferência de animais no objeto, embora os mediadores do evento não confirmem essa informação.

Um conjunto de árvores secas e um vídeo – que destaca a complicada atuação dos profissionais perante uma linha de produção em massa, também apresentando projetos, de jovens chineses, para ao longo da vida – são a obra-prima da 9ª Bienal do Mercosul, no Memorial do RS. A artista chinesa, Chao Fey, colocou camisas penduradas sobre galhos mirrados, destacando nas etiquetas os sonhos de vida da juventude chinesa – inconformada pela dura rotina de trabalho nas indústrias do país. Ao assistir o vídeo, posto ao lado da obra, os espectadores se deparam com a difícil rotina trabalhista dos moradores da península asiática – muitas vezes escravizados. Esse conjunto de informações alerta para a escravidão vivida pela população da China, dando destaque para os jovens sonhadores. “O público que vê essa obra impactante sente-se sensibilizado, pois ela revela, de forma dramática, os desejos reprimidos daqueles jovens trabalhadores”, afirma a mediadora da exposição, Lenira Santos.

O Memorial do RS mostra produções mais reflexivas, do que os outros locais que recebem a 9ª Bienal do Mercosul, em Porto Alegre. A intensidade sentimental das obras “prende” o público, que em alguns momentos emociona-se. Dessa maneira, a exposição é muito indicada para leigos, e também para apreciadores da arte contemporânea.

 

SANTANDER SULTURAL

Bienal das impressões

Cintia Fernandes

A arquitetura imponente do Santander Cultural cria um clima convidativo ao visitante. E é lá que está exposta uma parte da 9ª Bienal do Mercosul, em Porto Alegre. Intitulada Se o clima for favorável, a grande exposição de arte contemporânea apresenta ao público o que há de novo sobre arte em projeções de filmes, fotos, quadros com pinturas e performances de artistas.

Logo na entrada principal do Santander Cultural o visitante depara-se com a obra Vênus Yogi, de Erika Verzutti. Pequenas esculturas que dão a impressão de serem espécies de flores; e no lado esquerdo do primeiro andar, está Fulgurito, ou relâmpago petrificado, de Allan McCollum. Essa é uma detalhada pesquisa transformada em criação, replicada dez mil vezes e acompanhada por treze mil livretos expostos sobre bancadas. Toda essa quantidade de repetição foi a forma encontrada pelo artista para concretizar o breve momento em que um raio atinge a terra.

Mais ao fundo fica A musa de lama, do artista Robert Rauschenberg. Um tanque de lama borbulhante, que encanta pela altura que as bolhas alcançam e pelo som que produzem. É uma das obras que mais chama a atenção, já que os visitantes ficam observando por mais tempo.

Outra obra que impressiona é a Lula-gigante, de David Zink Yi. É uma bela reprodução negra do habitante das profundezas dos oceanos, que de tão real, dá vontade de tocar. Se conectarmos as ideias em comum entre cada obra e nos questionarmos, talvez o cefalópode fosse mais uma vítima da poluição dos mares.

Ideias e visões que provocaram os olhares e levantaram questionamentos do tipo – “Como tu interpretas essa arte?”, perguntou uma mulher à amiga que a acompanhava, apontando para a obra de Jason Dodge. Ali estava um cobertor dobrado e amarrado por um cordão branco, colocado ao chão. Um modo simples de causar uma intervenção aos que passavam pelos corredores do segundo andar.

 

Leituras individuais

Pedro Henrique Nunes 

Ao percorrer a exposição, o público é convidado a interagir com as obras, como no caso de ‘Musa da lama’, de Robert Rauschenberg. A obra trata-se de um tanque de lama que interage com o público, através de ondas sonoras liberadas através da voz dos visitantes. Esse som se transforma em sinal elétrico, que é repassado ao tanque. Dona Leci, de 60 anos, se disse impressionada com as obras: “Cada visitante faz uma leitura diferente dessas obras. É minha primeira vez na Bienal e estou gostando muito. O teto é o que mais me impressionou. São tantos detalhes”, brinca. Diante da lula-gigante esmagada, de autoria de David Zink Yi, Sara, de 40 anos, impressionou-se: o artista estabelece uma relação entre a técnica, arte, tecnologia e engenharia. Ela ainda conta que prestigia a Bienal todos os anos. Outra obra que chama bastante a atenção é a ‘Tradução da Resina’, de Lucy Skaer, de Cambridge.

 

Do mar ao espaço

Joaquim Oresko

Musa de lama é, certamente, uma das obras mais impactantes ddentre as expostas no Santander Cultural. Segundo a mediadora Sheila Prade dos Santos, o trabalho é de um artista muito importante para a arte contemporânea. “Chama muita atenção, pois é totalmente não convencional. Ele não é só visual, também é sonoro, está sempre em movimento”, avalia.

Para a também mediadora Kelly Martinez, estudante de pedagogia na UFRGS, a intenções bem diversas em cada andar da exposição em que trabalha. “O primeiro nível recorre a uma ideia de nível do mar em função dos pilares e da bancada compondo o entorno. Então, todas as obras que estão no térreo passam uma ideia de mar, terra ou tudo que está no solo. Quando subimos para o segundo andar, a gente vai para o espaço”, explica.

 

 

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