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Charge: humor e crítica no desenho

Para produzir bons trabalhos, é essencial que os chargistas estejam bem informados

Postado em 10 de outubro de 2013 por unicos.cc

Entre as diferentes editorias e conteúdos que compõem um jornal impresso, há um espaço que une desenho, crítica e humor. Esse espaço é chamado de charge. Para produzi-lo, o profissional necessita estar bem informado, além, é claro, de ser um bom desenhista. Por meio das charges, criam-se sátiras de acontecimentos que influenciam na vida da população.

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Charge de Diogo Fatturi que brinca com a saída de Dunga do Internacional (Foto: Leonardo Vieceli)

 

A EXPERIÊNCIA

Quando criança, Gilmar Luiz Tatsch, o Tacho, frequentava o bar de seu pai, em São Leopoldo, na Rua Osvaldo Aranha, onde passara boa parte dos dias até os 13 ou 14 anos de idade. Porém, o garoto não sabia que uma atividade lá realizada estaria diretamente ligada ao seu futuro profissional. “As pessoas iam ao bar para beber, contar piada. Enquanto isso, eu desenhava. Automaticamente, isso me levou à charge, caricaturando as pessoas, colocando balões de fala nos desenhos”, recorda.

Em 1976, o Jornal VS precisava de um funcionário, o chamado boy. À época com 17 anos, Tacho foi quem ocupou a vaga. Começava aí a sua ligação com o Grupo Sinos. Entre as tarefas executadas por ele, estava a de levar os diagramas das páginas do VS até Novo Hamburgo, onde era feita a paginação do jornal. “O pessoal brincava “Aí, Tatsch, chovendo em São Leopoldo?”. Tipo Tacho de chovendo. Ficou meio pejorativo. Eu me irritava com aquilo, mas o apelido pegou”, revela.

O período também marcou o início da carreira do profissional como chargista. Porém, ele deixou o jornal por dois anos para trabalhar em uma agência de propaganda. Em 1979, retornou ao Grupo Sinos. Atualmente, Tacho é chargista dos veículos da empresa – NH, VS, Diário de Canoas, Jornal de Gramado, Correio de Gravataí e Diário de Cachoeirinha -, além de produzir charges para o Correio do Povo há aproximadamente 25 anos. “Talvez eu seja o chargista com maior tiragem no Rio Grande do Sul”, aponta.

Hoje aos 54 anos, Tacho também trabalha com o projeto gráfico dos jornais do Grupo Sinos. Segundo ele, as ideias que dão origem às charges nem sempre surgem facilmente, pois há dias em que não está ocorrendo nada de tão impactante na vida das pessoas. Então, a solução para esse problema é buscar conteúdos em fatos presentes no noticiário por mais tempo, como é o atual caso dos médicos cubanos que chegaram ao Brasil.

Diariamente, Tacho produz duas charges – uma para os jornais do Grupo Sinos e outra para o Correio do Povo. “Com a charge, você pega um fato e consegue mostrar a contradição que existe naquilo. Muitas vezes, o chargista mostra para as pessoas o que elas não conseguem ver em uma matéria jornalística inteira. A charge vai direto à contradição, já que não é necessário ouvir fontes para fazê-la”, destaca.

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Tacho produz charge na redação do jornal NH (Foto: Leonardo Vieceli)

Quando o trabalho não é compreendido

Tacho salienta o poder crítico que a charge apresenta. Conforme o profissional, “não há charge que fala bem de algo”. Entre os assuntos que ele prefere abordar em seus trabalhos, não está o futebol. “O lance é criticar sempre. Posso simpatizar com alguma coisa. Por exemplo, em relação ao futebol, sou colorado. No entanto, isso não me impede de criticar o Inter com até mais rigor do que o Grêmio”, ressalta.

A aproximação entre empresas jornalísticas e público, causada pela internet, é lembrada pelo chargista. Ao lidar com questões de ordem política ou futebolística é normal que o leitor entre em contato e, seguidamente, critique o autor da charge.

Um desses exemplos ocorreu no início deste ano, após o jogo entre Corinthians e San José, da Bolívia. Na ocasião, o jovem Kevin Espada morreu depois de ter sido atingido por um sinalizador disparado por um torcedor corintiano. Então, Tacho produziu uma charge sobre o assunto. “Fiz uma charge com uma escala inversa da evolução do homem. Recebi ameaças de tudo que é jeito. Não pensei no torcedor normal. Eu quis atingir o torcedor fanático e violento”, relembra.

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Charge produzida por Tacho sobre a morte do garoto Kevin Espada (Foto: Reprodução)

 

O DENTE DE LEITE

Com um copo de café em mãos, Diogo Fatturi, 31 anos, caminha pelo restaurante do prédio onde está instalado o jornal Zero Hora. Ilustrador, design gráfico e chargista de ZH, ele destaca que o ritmo de trabalho na redação de um grande veículo é acelerado.

Fatturi está prestes a concluir o curso de Publicidade e Propaganda e trabalha no jornal desde 2011. As funções do profissional estão mais ligadas a ilustrações, tanto para o meio impresso como para o digital, e ao design gráfico. No entanto, durante a última Copa das Confederações, surgiu a sessão digital Os Flautistas, espaço onde são publicadas charges esportivas. Com isso, Fatturi começou a criar conteúdos sobre o assunto. “Queríamos fazer charge para pegar no pé, para se arriar”, explica.

Depois da Copa das Confederações, Os Flautistas virou um espaço destinado à publicação de conteúdos voltados à dupla Gre-Nal. “Começou a dar tanto acesso, mas tanto acesso, que a gente ficou focado nos dois clubes”, revela Fatturi. Apesar de lidar com a temática do futebol do Estado, onde a rivalidade é intensa, Diogo, que é natural de Brasília, “não gosta muito do esporte”. Entretanto, ele diz que a nova função é algo “prazeroso”.

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Fatturi cria charge na mesa de desenho da redação de Zero Hora (Foto: Leonardo Vieceli)

Antes de trabalhar na Zero Hora, Fatturi atuou por oito anos no jornal NH. No veículo do Vale dos Sinos, ele adquiriu experiência como ilustrador para o meio impresso, além de ter produzido algumas charges. E, como seus trabalhos iniciais na Zero Hora foram voltados ao meio digital, o profissional adquiriu experiências nas duas mídias.

Fatturi declara-se admirador do trabalho de um experiente chargista do Grupo Sinos, que conheceu nos tempos de NH. “Para mim, o Tacho é o cara”, enaltece. O apreço de Diogo pelos desenhos vem desde a infância, assim como ocorreu com o chargista do Grupo Sinos. “Eu estou começando a fazer charge. Sou meio dente de leite”, afirma Fatturi.

O profissional de ZH também resalta que é normal encontrar dificuldades na criação do trabalho, pois a grande ideia pode demorar a surgir. Pelo fato de Os Flautistas lidar com futebol, Fatturi diz que uma conversa com os jornalistas da Editoria de Esportes pode trazer inspiração a ele.

Diogo também salienta o aspecto temporal da charge. Por isso, há a pressão para que o trabalho seja criado dentro do prazo. “Uma vez faltava meia hora para eu ir embora e ainda não tinha uma ideia. Fui lá embaixo (no restaurante) para jantar. Fumei um cigarro. Comecei a pensar na notícia e, de repente, plim: brilhou a ideia”, conta. O resultado dessa situação foi a charge que une a representação da morte à figura de Dunga, ex-treinador do Internacional.

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Charge de Fatturi sobre Dunga, ex-treinador colorado (Foto: Reprodução/Zero Hora)

Para quem deseja ser um bom chargista, Fatturi aconselha a busca contínua de novos conhecimentos e informações. Porém, ele não sabe se existe um segredo comum a todos os bons profissionais da área: “Cara, ainda estou procurando isso. Se achar, me fale (risos)”.

EXPEDIENTE

Leonardo Vieceli - Texto

Franciele Arnold - Vídeos

Marco Prass – Edição de vídeos

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