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Retrato de uma jovem travesti

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Postado em 11 de outubro de 2016 por unicos.cc

Por Priscila Boeira

Angicos, acácias e bananeiras passam correndo por seus olhos emoldurados por tons de rosa e marrom esfumado. Por um instante, eles contemplam seu próprio reflexo na janela. Satisfeita com a imagem, um sorriso contido de orgulho surge em seus lábios coloridos em pink. Assim que recorda sua missão, o olhar adentra novamente na mata se perdendo no transe causado pelo movimento.

Após uma curva acentuada na altura do quilômetro 62 da Rodovia Estadual 452, ligando Bom Princípio a Feliz, o ônibus da Bento Transportes perpassa as paredes forradas de vegetação e alcança um ponto descampado. Agora, Carina consegue enxergar a torre da Igreja Matriz Santa Catarina de Alexandria, reinando como arquitetura soberana. Feliz é uma cidade do Vale do Caí, habitada por pouco mais de 13 mil pessoas e colonizada predominantemente por alemães.

Como quem desperta de um transe, apressada, Carina abre a bolsa de courino marrom, comprada no brechó do Hospital de São Vendelino. Remexe e retira o estojo de sombras do Avon para verificar a maquiagem. Em seguida, apalpa o sutiã e verifica a simetria dos bojos vazios. A essa altura, o ônibus se aproxima da avenida Maurício Cardoso, a uma quadra da rodoviária. “Será que o Luan já chegou?”, preocupa-se.

Carina passa as longas unhas pintadas na cor Vermelho Sedução por entre o megahair louro platinado e suspira profundamente. Indiferente a senhora sentada no banco ao lado, ela balbucia em frente ao espelho, alto o suficiente para ser ouvida: “Eu sou linda. Sou uma princesa”. Essa é a imagem que ela quer deixar nessa cidade. Neste final de semana sua missão é conquistar a família do namorado. Dessa vez ela não pretende ir embora sem contar para a sogra que nem sempre foi assim, feminina. Até pouco tempo seu nome era Fábio.

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Sentado em um banco de madeira no lado de fora da rodoviária, Luan responde a última mensagem recebida de Carina. No momento em que avisa já estar à sua espera, o ônibus estaciona.

- Que saudade! – Diz ela, largando a bolsa sobre o banco para enlaçar o pescoço do namorado com as duas mãos. Ele retribui com um beijo discreto.

- Que foi? Algum problema? — questiona, desconfiada, lendo nos olhos vermelhos traços da leseira causada pelo cigarro de maconha.
- Nada não. Tá tudo bem. Tá com fome?

- Um pouco.

- Vamos comer lá na casa dos meus tios. Tem bastante gente.

- Ai-meu-deus! E agora? — Preocupa-se, Carina. O cenho contrai-se, o sorriso se apaga e cede lugar a um olhar assustado.

- Calma, eles vão te amar, amor. Fica tranquila.

- Mas e se perceberem? Eu estou bem vestida? Gostou da minha maquiagem? Fui no salão. — Exibi-se, agora novamente relaxada e com um sorriso de malícia.

- Tá linda como sempre. É só tu ser tu mesma. E se perceberem, melhor. Assim não preciso contar.

No portão da casa de alvenaria de um único pavimento, modesta, porém adornada com um jardim bem cuidado, Carina ouve as gargalhadas e o tilintar dos copos e talheres. A cada passo o coração bate mais acelerado. Luan abre a porta da garagem, onde todos estão. Mais próximas à porta, em uma roda de chimarrão, as mulheres interrompem a conversa para olhar a desconhecida. Em frente a churrasqueira, os homens viram os rostos para a porta. Para disfarçar a curiosidade, continuam a discussão acalorada sobre futebol.

A visitante decide quebrar o clima cumprimentando todas as mulheres com dois beijinhos, uma a uma.

- Prazer. Eu sou a Carina. — fala, distribuindo sorrisos.

Luan a conduz até a roda dos homens. Ela, então, estende a mão para todos. Carina tem a sensação que está sendo analisada milimetricamente e por um momento sente medo dos julgamentos sobre sua voz. No improviso, dispara:

- Que tempo chato, né? Me atacou a rinite. Fiquei até rouca.

Sentada, Carina acaricia os cabelos de Luan, que está deitado sobre o sofá vermelho, desbotado pelos anos de uso. Com os dedos, entremeia os cabelos castanhos e lisos caídos sobre seu colo. O peso do churrasco em seu estômago começa a lhe dar sono. O ambiente liquidifica sons de louça sendo lavada, gargalhadas estridentes e vozes abafadas. Por alguns segundos Carina dispersa. O sorriso se desfaz e as feições voltam à naturalidade. A mente viaja no tempo e retorna aos meados da década de 1990.

Fábio se descobriu Carina aos sete anos de idade, durante uma aula de Educação Artística. A professora separou meninos e meninas em dois grupos para que brincassem. No baú de seu grupo só havia carrinhos, aviões e bola de futebol. Não respeitando as ordens da professora, Carina correu para o baú das meninas. Ela queria brincar com as bonecas. Queria vestir a fantasia de princesa. “Eu percebia que eu era diferente dos outros meninos. Da mesma forma, eles me viam diferente e eu virava alvo de bullying. Eu apanhava dos meus colegas. Quando eu passava eles riam, diziam que eu era um veadinho”, recorda.

Aos 16 anos, Fábio ainda insistia no protocolo da vida politicamente correta de sua pequena cidade. Vivia rodeado por meninas, suas legítimas amigas. Porém, não sentia qualquer espécie de atração sexual. A tentativa de perder a virgindade aconteceu nessa época. A ideia partiu de uma amiga, também virgem. “Eu fui até a casa dela e começamos a nos beijar. Tu sabe o que é ficar um tempão se acariciando e não sentir nada? Na-da! Então eu pedi desculpas e disse que não conseguia. Ela ficou chateada pensando que eu não a achava bonita, mas nada a ver. Não era isso. Eu só não tinha coragem para dizer que não me sentia atraída por gurias”, recorda.

Aos 19 anos, Carina começou a desabrochar lentamente. As poucos, parou de comprar roupas masculinas. Todo mês levava para casa alguma blusa, esmaltes e anéis. A apresentação de sua verdadeira essência ocorreu em um baile de estudantes. “Meu grupo de amigos e eu pensávamos que o baile era à fantasia, só que não era. Eu aproveitei a ocasião e realizei o desejo de me vestir de uma maneira super feminina. No dia seguinte, uns fofoqueiros foram contar para o meu irmão e para minha mãe”, diverte-se ao lembrar. Naquela noite, Fábio morreu.

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Pensou em como os homens naquela garagem reagiriam se soubessem de tudo. Ela conhece o preconceito. Conhece seu poder e o peso de sua mão. Há cerca de dois anos chegou a ir ao tribunal para processar um homem que a espancou com um pedaço de pau no meio da rua. Carina prefere não falar sobre essa época. Algumas atitudes acabaram a expondo demasiadamente na pequena cidade. “Se alguém me oferecesse dinheiro para sair e transar, eu não pensava duas vezes. Fiz programas e já fui enganada”, conta. Como na ocasião em que um sujeito abordou Carina e uma amiga em um barzinho da cidade. Ele chegou se impondo, decidido. Disse que seu sonho era transar com uma travesti e uma lésbica ao mesmo tempo. “Ele tirou um bolo de dinheiro do bolso. Acho que era uns R$ 400. Minha amiga e eu nos olhamos, rimos e topamos. No motel, ele pediu para minha amiga nos filmar. Eu estava bêbada e nem me preocupei. Na hora de ir embora ele jogou uns trocados em cima da cama que só davam para pagar o táxi. Minha amiga e eu começamos a reclamar, mas ele ameaçou partir para a violência. No dia seguinte o vídeo já estava circulando pela internet”.

Pouco tempo depois, Carina foi novamente alvo de sua ingenuidade e da violência. Um notório vereador contratou seus serviços sexuais, deleitou-se e não pagou. Indignada, ela ligou para a casa do nobre edis e contou tudo para sua esposa. No dia seguinte ligou novamente. A raiva dentro de si a remoía e seu conforto era poder desabafar com as amigas do salão de beleza, nas lojas, no brechó, na farmácia. Não demorou muito para que a história se espalhasse.

info-priscilaEra um sábado à noite. Carina voltava sozinha para casa. Subia a ladeira asfaltada rodeada por casas, em sua maioria de dois andares, no mais tradicional conceito arquitetônico de um bairro de classe C, predominantemente de descendência italiana: grandes retângulos em alvenaria formados por dois pisos, adornado por uma escada frontal de muitos vais e vens. O primeiro andar é ideal para ser usado como garagem para caminhão de frutas e verduras.

Ela seguia distraída, pensando em tudo, pensando em nada. Ao sentir a presença de alguém em suas costas, virou-se rapidamente. Era o cliente mau pagador. O pai de família respeitado empunhava um pedaço de madeira e vinha em sua direção com olhos embotados de ódio.

- Seu puto mentiroso! Agora tu vai ver com quem se meteu.

Carina sentiu a primeira paulada no braço direito, com o qual se defendeu no primeiro reflexo. O segundo golpe acertou a canela direita e a fez desequilibrar. Caída no chão ela gritava apavorada, mas o vereador estava disposto a lhe dar uma lição por ter manchado sua honra.

- Filho da puta! Viado, vadio. Eu vou te cagar a pau.

- Socorro! Ele vai me matar. Socorro! — berrava.

A vizinhança ligava as luzes das sacadas. Alguns espiavam pela janela, outros corriam para o portão. “Ele só parou quando uma vizinha veio me acudir. Fiquei toda marcada. Olha!”, indica o olhar, arregaçando a longa saia floreada em tons de amarelo, azul e laranja.

O pai de Carina a acompanhou ao Tribunal. Ao contrário de sua mãe ele a aceita. Dona Jacira apenas cansou de reclamar. Através do olhar ela continua deixando nítido que detesta a versão feminina de seu amado filho.

Uma gargalhada estridente desperta Carina do sono. Luan continua dormindo sobre seu colo. Ela revira a bolsa e encontra o celular. Lembra que postou uma foto no Facebook e checa quem a curtiu. Já são 17h. O último ônibus de volta à sua cidade parte às 18h. A missão não foi cumprida. Mais uma vez ela voltará com palavras atravessadas na garganta.

Camaleoa

Carina e Luan terminaram o namoro dias após a entrevista, realizada em outubro de 2015. Segundo sua versão, ela não suportava mais seu vício em maconha. No entanto, creio que ela não contou toda a verdade. Ela o amava muito para desistir. Enquanto conversávamos, ela declamou um poema decorado, dito a ele ao celular. Carina se entrega de corpo e alma, confia, vive sempre o ápice das emoções. Uma atitude fria e racional não combina com seu temperamento. Cerca de dois meses se passaram desde a nossa primeira conversa. Continuamos mantendo contato por mensagens SMS, whatsApp e pelo chat do Facebook.

Há alguns dias, Carina desistiu de levar uma vida convencional. Fazer faxina nunca foi o que desejou para si. O problema é que nunca conseguiu uma outra oportunidade de emprego. Sempre que enviava um currículo assinava com os dois nomes. Nunca recebia retorno. A única vez que foi admitida em uma empresa aconteceu por influência de sua mãe, que trabalhava no mesmo local. O frigorífico a obrigava a frequentar o banheiro masculino, o que a deixava constrangida. Isso não durou muitos dias, pois foi dispensada.

Carina é vaidosa, sonha em comprar roupas, sapatos e viver no salão de beleza. Só que isso demanda dinheiro e a prostituição é uma solução fácil. Por isso, deixou a casa onde morava de aluguel com a mãe e dois irmãos. Atualmente, ela mora com outras travestis em uma cidade vizinha. Segundo ela, está feliz, mesmo sentindo saudades, afinal, finalmente está ganhando dinheiro. Seu próximo plano é economizar para colocar silicone no bumbum.

Quanto ao futuro, a jovem travesti deposita esperança. Ela deseja terminar o Ensino Médio, encontrar um grande amor e adotar uma criança. “Quero ser mãe”, revela.

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