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Desafio extracampo: as armadilhas da bola

Além de enfrentar adversários nos gramados, jogadores precisam de cautela para evitar tentações

Postado em 17 de janeiro de 2014 por unicos.cc

Em entrevista a um jornalista, a teóloga Dorothee Sölle afirmou que não explicaria a um menino o que é felicidade, mas, sim, daria uma bola para que o garoto jogasse. A declaração da intelectual alemã relaciona-se diretamente com a rotina e o pensamento de milhões de jovens brasileiros. Para eles, alegria é sinônimo de futebol e de bola rolando, seja em um campo de terra batida, na rua à frente de casa ou no gramado do Maracanã lotado.

Chegar a um grande clube, entretanto, não é tarefa fácil. É preciso driblar dificuldades e enfrentar adversários para vencer. Quando a minoria desses jovens finalmente consegue a tão sonhada vaga em um time profissional, depois de passar por testes em categorias de base, novos desafios aparecem. É necessário lidar de maneira cautelosa com dinheiro, fama e sucesso, o que faz parte da vida dos grandes atletas. Porém, em muitos casos, isso não ocorre.

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Jovens têm que passar por diferentes etapas até o futebol profissional (Foto: Leonardo Vieceli)

Coordenador do Curso de Extensão em Psicologia Aplicada ao Esporte da Unisinos, Maurício Pinto Marques destaca que o acompanhamento psicológico aos garotos é um assunto que merece atenção dos clubes brasileiros. No entanto, segundo o professor, tal preocupação ainda não é seguida ao pé da letra pelos dirigentes.

Marques ressalta que fatores como o dia a dia longe dos familiares interfere no desenvolvimento psicológico dos meninos, pois grande parte deles reside em alojamentos oferecidos pelos clubes. “Eles não têm um convívio familiar. Os clubes não dão esse suporte ao garoto, que está em fase de formação. Se o menino conseguir chegar ao time profissional, ele já será um vencedor. E, no time principal, o jogador terá que lidar com a fama, com a cobrança do treinador e da imprensa, além de conviver com os próprios colegas de vestiário”, analisa o psicólogo.

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Acompanhamento psicológico é importante a jovens jogadores (Foto: Leonardo Vieceli)

“Ninguém apagará a minha história”

Os grandes feitos da trajetória futebolística de Arílson Gilberto da Costa, 40 anos, assemelham-se àqueles que inúmeros brasileiros sonham em alcançar. Quando criança, em Bento Gonçalves, na serra gaúcha, ele trabalhou como engraxate e vendedor de picolés para ajudar no sustento familiar. “Na minha família, são seis mulheres e só eu de homem. Não tenho mais pai. Ele faleceu quando eu tinha nove anos”, conta o ex-jogador e atual técnico da equipe sub-19 do Aimoré, de São Leopoldo.

Para passar pelas dificuldades da infância e juventude, Arílson encontrou no futebol a chance de crescimento pessoal e profissional.  Aos 17 anos de idade, jogava pelo time principal do Esportivo de Bento Gonçalves e, em seguida, foi contratado pelo Grêmio. A vida do jovem jogador tomou outro rumo. “Deu um baque. Senti um pouco. Se o jogador não tiver família ou alguém para ajudar, ele não aguenta e volta para o interior”, afirma.

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Atualmente, Arílson é treinador do time sub-19 do Aimoré (Foto: Kairo Lenz)

No Grêmio, o ainda jovem atleta vindo da Serra sentiu na pele o que cerca a vida de um jogador profissional fora dos campos. “Eu tinha um salário legal, um carro zero-quilômetro, dinheiro no bolso, ia aos melhores restaurantes. Quem é que não se deslumbra com isso?” questiona.

Dentro de campo, o currículo de Arílson causa inveja a muitos jogadores. Conquistou 10 títulos (entre eles a Libertadores da América, pelo Grêmio, treinado por Felipão), também passou por Internacional e Palmeiras, atuou no alemão Kaiserslautern e vestiu a camiseta da Seleção Brasileira. “Ninguém apagará a minha história”, salienta.

A passagem do jogador pela seleção canarinho, aliás, ganhou repercussão em 1996. À época, Arílson não vinha recebendo oportunidades no time do técnico Zagallo que disputava o torneio Pré-Olímpico na Argentina. Diante da situação, o atleta deixou a concentração e retornou para a Alemanha, onde defendia o Kaiserslautern. “O pessoal disse que eu fugi da concentração. Eu não fugi. Saí de lá ao meio-dia e peguei as minhas coisas. Hoje, talvez eu não fizesse isso”, afirma.

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Arílson chegou à Seleção Brasileira na década de 1990

Fora de campo, Arílson confirma o apreço pela boemia. Não desprezava um churrasco com os amigos. Mas, segundo ele, não há arrependimento do que ocorreu durante a carreira. Do alto de tudo o que aprendeu no futebol, o atual treinador utiliza suas vivências para aconselhar os atletas da equipe sub-19 do Aimoré. “Eu gostava de uma cervejinha, mas nunca fiz mal a ninguém, não sou mau-caráter. Não quero que eles se prejudiquem. Tento ensinar o que é correto e o que é errado, passar uma experiência de vida. Alguns seguem pelo caminho certo. Já outros, não”, explica.

Prestes a completar dois anos no clube leopoldense, seu trabalho frente aos garotos apresentou notório resultado em 2013. O treinador comandou a equipe até as semifinais da Copa da Federação Gaúcha de Futebol (FGF), na qual o clube foi desclassificado pelo Internacional, que foi o campeão do torneio.

O ex-jogador demonstra-se habituado a São Leopoldo. Ao caminhar pelo Estádio Cristo Rei, é cumprimentado por diferentes pessoas que transitam pelo local. Sentado na arquibancada, queixa-se do sol que paira sobre o Vale do Sinos em uma tarde abafada de verão. E revela que não largou totalmente a bola: ainda joga sua ‘pelada’ com os amigos.

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Arílson diz que passa conselhos aos atletas do seu time (Foto: Kairo Lenz)

“É como se eu estivesse recomeçando no futebol”

Fim de tarde no Vale do Sinos. Já são mais de 19h. Para a maior parte do elenco principal do Esporte Clube Novo Hamburgo, o treinamento já terminou. Enquanto isso, alguns jogadores permanecem no gramado do Estádio do Vale. Um deles é o lateral Anderson Pico, que treina cobranças de falta e cruzamentos. Tamanho esforço do atleta não é em vão: ele deseja retomar os bons momentos já vividos na carreira.

Pico, 25 anos, vem de uma família de origem humilde. O pai era jornaleiro. A mãe, empregada doméstica. Atualmente, ambos não trabalham graças à profissão do filho. “Meus pais não tinham muitas condições de transporte e de alimentação, mas eles sempre batalharam para me dar do bom e do melhor das condições deles. Um dos meus irmãos (Pico tem sete no total, um já falecido) foi jogador, me espelhava muito nele”, conta.

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Anderson Pico (à dir.) treina ao lado do técnico Itamar Schülle (à esq.) (Foto: Kairo Lenz)

O atleta iniciou nas categorias de base do Grêmio em 2001. Quatro anos depois, em 2004, Pico permaneceu em torno de seis meses no maior rival gremista, o Internacional. No ano seguinte, retornou à base do Tricolor. “Quando comecei na categoria de base do Grêmio, ganhei um salário. Para mim, foi uma vitória”, relembra.

Pico estreou na equipe principal do Grêmio em 2007, à época com 18 anos. Já nas primeiras partidas o jovem lateral se destacou em virtude de sua força física. Porém, fora dos campos, percebeu que o caminho até a fama é tortuoso. “Muitas coisas ficaram fáceis, amigos e pessoas tentavam se aproximar. Daqueles amigos da época, tenho dois ou três hoje. Isso era muito ruim. Achava que eram meus amigos, mas não eram. Várias vezes sumiram coisas da minha casa”, revela.

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Pico disputa bola no jogo de inauguração da Arena do Grêmio (Foto: Lucas Uebel/Divulgação Grêmio FBPA)

Apesar da qualidade comprovada nos gramados, Pico precisou – e ainda precisa – lutar contra um adversário que o incomoda bastante: a balança. Os quilos a mais, adquiridos durante as férias entre as temporadas, prejudicaram o desempenho e a carreira do jogador. “Isso interferiu bastante, por eu não me cuidar nas férias. Mas sou novo, tenho 25 anos. Ainda há tempo para recuperar. Meu objetivo é estar bem. Estou quase lá”, afirma, confiante.

Depois de atuar pelo Grêmio, o lateral passou por clubes de menor expressão, como Figueirense, Juventude e São José de Porto Alegre. Em 2012, recebeu nova oportunidade no time principal gremista. O futebol apresentado pelo jogador ao longo do Campeonato Brasileiro daquele ano rendeu a ele uma vaga na equipe titular do clube. Porém, ao se reapresentar para a temporada 2013, Pico soube que não fazia mais parte dos planos do Grêmio. Os quilos a mais fizeram com que ele rescindisse o contrato com o Tricolor e rumasse para a Chapecoense ainda no ano passado.

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Pico trabalha no Novo Hamburgo para retomar o bom futebol (Foto: Kairo Lenz)

Agora em Novo Hamburgo, o atleta mostra-se totalmente focado para alcançar um bom resultado no próximo Campeonato Gaúcho. “É como se eu estivesse recomeçando no futebol. Venho trabalhando todos os dias com a maior dedicação. Não há por que não estar feliz aqui”, aponta.

Assista ao vídeo da entrevista com Anderson Pico:

Caminho tortuoso até o time principal

Maurício Pinto Marques ressalta que 16 anos é a idade mínima para um jogador de futebol assinar um contrato profissional com algum clube. Antes dessa etapa, nas categorias de base, o psicólogo lembra que os jovens atletas recebem apenas uma ajuda de custo. “Quando se destacam e assinam um contrato, saem do nada para ganhar, em média, uns R$ 10 ou 15 mil. É muito fácil cair nas armadilhas”, frisa.

Conforme Marques, o garoto que se sobressai nas categorias de base recebe ainda mais destaque, atualmente, graças à internet. Se os empresários buscarem o nome do jogador na rede, provavelmente aparecerão vídeos do atleta que tem potencial para virar craque.

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Segundo psicólogo, jovens jogadores têm maior exposição atualmente (Foto: Leonardo Vieceli)

Em busca do sonho

O nome é de gênio. Entretanto, Albert Denis Dornelles, 19 anos, deseja brilhar nos estádios de futebol e não no campo da física, como o alemão Albert Einstein. Para isso ocorrer, o jogador não mede esforços. Entre outros obstáculos, o jovem atacante, que atua nas categorias de base do Aimoré, enfrenta o sol escaldante e participa do treino, em um campo de areia, junto com os colegas de time. Assista à entrevista do atleta em vídeo:

Novos craques surgem anualmente no Brasil. Os poucos que passam por todos os vestibulares impostos pela bola precisam de jogo de cintura para não tropeçar nos obstáculos da fama. Se eles sucumbirem, novos jogadores tomarão os seus lugares, já que o Brasil é o país ao qual os versos do poeta Carlos Drummond de Andrade melhor se relacionam. Aqui, futebol não se joga apenas no estádio, mas também na praia, na rua e, acima de tudo, na alma.

 

REPORTAGEM

Leonardo Vieceli - Texto

Kairo Lenz -  Vídeos

Para conferir as imagens produzidas durante a reportagem, acesse a galeria de fotos.

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